Pelo Amor DJ

Eu me lembro quando o Ricardim apareceu com o gravador. Ele mostrou rapidamente pro grupo, já enfiou no bolso, e nunca mais vi de novo o aparelho. Nunca mais vi, mas sempre sabia quando o gravador estava por perto. O jeito do Ricardim andar é outro, quando o gravador está no bolso. E se o gravador está ativo, captando sons, também dá pra perceber com clareza. A expressão do rosto revela um tipo de acendimento muito peculiar. Mais de uma vez, nesses primeiros dias do gravador, diante da voz de alguma senhora lavando roupa, ou da molecada aos gritos jogando futebol, alguém percebia esse acendimento, e perguntava pro Ricardim: “tá gravando?”. Balançadinha mínima de cabeça, afirmativa. Não tenho dúvidas: esse gravador mudou a vida do meu companheiro.
A impressão que fica é que o Ricardim passou a construir, tijolo por tijolo, fio por fio, um reino novo, dele, personalíssimo. Não foram poucas as vezes em que tentamos chamar o Ricardim pro lado de cá. Esforço em vão, talvez. Ricardim já estava absorvido pela cidade nova, pela sua Bagdá pessoal, pelo sua Istambul de dentro.
O mais curioso é que essa completa imersão na sua cidade de dentro, pelo jeito, acabou levando o Ricardim a ocupar de uma maneira ainda mais radical o mundo de fora. O homem tornou-se um pesquisador da matéria e da sua incrível capacidade de produzir sons. Não era raro ver o Mano Ric curvado sobre a corda de um varal, o ouvido colado, os dedos tangendo a corda, investigando o som. Usinas portáteis irradiando música: liquidificador, máquina de lavar. Explosão de gota sobre o metal da pia. Os grooves da tubulação do Hotel Submundo. O ranger dramático da porta se abrindo na madrugada. A tudo isso Ricardim esteve atento. No bolso o gravador, fazendo escoar pra uma outra dimensão tudo o que nessa dimensão soasse.